Lean não é coisa de indústria.
Onde existe um fluxo — do pedido à entrega, da solicitação à resposta — existem desperdícios a eliminar: hospital, transportadora, laboratório, escritório, hotel. Veja o mesmo método aplicado em setores diferentes: fluxo enxergado, lead time medido, ganho comprovado — cada projeto com seu A3 do Projeto Lean fechado.
Redução do Lead Time Porta-Alta no Fluxo do Pronto Atendimento
Assistencial — Pronto Atendimento · Jul/2026 – Dez/2026
Planejar
O paciente simples atravessava 4,9 horas de fluxo em que quase tudo era espera, e duas esperas concentravam 68,5% do problema.
A líder do Pronto Atendimento mapeou o fluxo de valor do paciente de baixa complexidade, da porta à alta: dos 9.800 atendimentos/mês, os verde/azul levavam em média 4,9 horas no fluxo, com picos de 7,8 horas, quase o dobro da referência de 2,5 horas, e o tempo de cuidado real era uma fração disso: o resto era fila. A evasão chegava a 6,2% (~610 pacientes/mês desistindo) e o impacto era de R$ 96 mil/mês. A observação no Gemba com folha de verificação registrou 540 ocorrências de espera prolongada, e o Pareto mostrou espera por laboratório (39,6%) e por reavaliação médica (28,9%) somando 68,5%. As causas-raiz comprovadas: falta de prazo pactuado e fila prioritária com o laboratório, e ausência de um fluxo rápido para a família de pacientes simples, que disputava a fila dos graves. Meta: porta-alta de 4,9 para 2,5 horas até 11/12/2026, com R$ 25 mil de orçamento.
P1 Qual é o problema de negócio e qual fluxo de valor ele afeta? Onde o fluxo começa e termina, e quem é o cliente?
O problema de negócio é o lead time do paciente de baixa complexidade: no nosso Pronto Atendimento, com 9.800 atendimentos/mês, o verde/azul levava em média 4,9 horas da porta à alta, com picos de 7,8 horas e 38% dos casos acima de 6 horas. O fluxo começa na chegada do paciente à recepção e termina na alta, e o cliente é ele mesmo, o paciente e seus acompanhantes: ~610 pessoas/mês (6,2%) desistiam antes do atendimento, num impacto de R$ 96 mil/mês entre receita perdida e horas extras.
P2 Qual é a situação atual do fluxo, medida no local? (Mapa de Fluxo de Valor — VSM — do estado atual, lead time, tempos de ciclo e o que agrega valor)
Fui com a equipe para o Gemba e medimos o fluxo real: da triagem à alta, o paciente verde/azul atravessa recepção, triagem, consulta, exames e reavaliação, e a maior parte das 4,9 horas é espera entre etapas, não cuidado. Os registros de horário do sistema do hospital, de jan/2025 a jun/2026 e cobrindo 100% dos casos, confirmaram a média, e a estratificação mostrou concentração no turno das 18h às 23h (57% dos casos). Antes de confiar nos dados, conferimos os registros no local: os horários batiam com a realidade.
P3 Quais dos 8 desperdícios aparecem no fluxo, onde, e qual pesa mais?
O desperdício dominante é espera: das 540 ocorrências registradas na folha de verificação, a espera por resultado de laboratório (39,6%, com o resultado levando em média 94 minutos para chegar ao PA) e a espera por reavaliação médica (28,9%) somam 68,5%. Também aparecem superprocessamento, com o paciente simples atravessando o mesmo fluxo dos casos graves, movimentação de pacientes e equipe entre setores, e o talento da enfermagem preso em gerenciar fila em vez de cuidar.
P4 Quais são as causas-raiz dos desperdícios prioritários — e como foram comprovadas?
Os 5 Porquês, confirmados pela medição no local, chegaram a duas causas-raiz: não existe fila prioritária nem prazo pactuado com o laboratório, então a amostra do PA entra na vala comum e o resultado leva 94 minutos; e não existe um fluxo rápido com checklist de reavaliação e critérios de alta para o verde/azul, que disputa a mesma fila dos casos graves. O Ishikawa de 6 categorias sustentou a análise, e as causas foram comprovadas com dados antes de qualquer contramedida.
P5 Como é o estado futuro desenhado para o fluxo?
No estado futuro, o paciente simples corre num fluxo próprio, separado por família de valor: fluxo rápido verde/azul com enfermeiro conduzindo, checklist de reavaliação com critérios objetivos de alta, e o laboratório puxado por prioridade, com etiqueta e prazo pactuado de 45 minutos para amostras do PA. Painel de gestão à vista por turno fecha o desenho, dando visibilidade do fluxo em tempo real.
P6 Qual é a meta do projeto e em qual indicador ela será medida?
A meta é reduzir o lead time porta-alta dos pacientes verde/azul de 4,9 para 2,5 horas (−49%) até 11/12/2026, medido nos mesmos registros de horário do sistema do hospital, mantendo integralmente os protocolos assistenciais. Como metas de apoio: permanência acima de 6 horas de 38% para 10% e evasão de 6,2% para 2,5%.
P7 Qual é o escopo? Quem lidera, quem participa da equipe e quem patrocina o projeto?
O escopo cobre o fluxo do paciente verde/azul no Pronto Atendimento adulto, da triagem à alta, incluindo exames de laboratório e imagem originados no PA; ficam de fora os pacientes graves, a gestão de leitos, obras e contratações. Eu, Enf. Camila Freitas, lidero pela Enfermagem do PA, com Dr. André Sales (Corpo Clínico), Bruno Teixeira (Laboratório) e Thiago Ramos (Qualidade). O patrocínio é de Mariana Castro (Diretoria Assistencial), com orçamento aprovado de R$ 25 mil.
P8 Qual é o plano de implantação (5W2H) e como as frentes foram priorizadas?
O 5W2H priorizou as frentes de maior impacto e menor esforço, somando cerca de R$ 16 mil do teto de R$ 25 mil: etiqueta de prioridade e prazo pactuado de 45 minutos com o laboratório (Bruno Teixeira, ago/2026), fluxo rápido para verde/azul (Dr. André Sales, set/2026), checklist de reavaliação e critérios de alta (comigo, set/2026) e painel de gestão à vista por turno (Thiago Ramos, out/2026). As melhorias de maior porte entraram como onda piloto de 2 semanas antes de escalar, e o ponto de coleta dedicado no PA ficou para uma fase 2.
Executar
A onda piloto de 2 semanas colocou o fluxo rápido de pé: etiqueta de prioridade no laboratório, família verde/azul em fila própria e checklist de alta.
Com o plano aprovado, a equipe rodou a primeira onda de melhoria no próprio local de trabalho: um piloto de 2 semanas nos turnos diurno e vespertino. O laboratório passou a receber as amostras do PA com etiqueta de prioridade e prazo pactuado de 45 minutos, os pacientes verde/azul entraram no fluxo rápido próprio, separados por família de valor, e a reavaliação médica ganhou checklist com critérios objetivos de alta, o novo trabalho padronizado do fluxo. Na primeira semana, o checklist foi ajustado com as sugestões dos médicos do plantão, e a etiqueta rodou de forma manual até o sistema receber o campo específico. As equipes dos dois turnos foram treinadas com registro de presença, o laboratório pactuou o prazo em reunião e a recepção foi comunicada. O investimento ficou em cerca de R$ 16 mil, dentro do teto de R$ 25 mil.
D1 As ondas de melhoria (kaizens) do plano foram executadas? O que foi feito, por quem e quando?
Sim, a onda piloto executou as três melhorias centrais do plano: etiqueta de prioridade no laboratório com prazo pactuado de 45 minutos (Bruno Teixeira), fluxo rápido para pacientes verde/azul (Dr. André Sales) e checklist de reavaliação com critérios de alta (comigo). Tudo rodou num piloto de 2 semanas nos turnos diurno e vespertino, com investimento de cerca de R$ 16 mil, dentro do teto de R$ 25 mil.
D2 Quais mudanças de fluxo, layout ou padrão de trabalho foram implantadas no processo?
O fluxo mudou de desenho: o paciente simples deixou de disputar a fila dos graves e ganhou um caminho próprio, com enfermeiro conduzindo a passagem entre etapas; a amostra do PA deixou de entrar na vala comum do laboratório e passou a correr em fila prioritária com prazo; e a reavaliação e a alta viraram trabalho padronizado, com checklist de critérios objetivos em vez de variação de conduta.
D3 Como a gestão visual foi implantada e como o time da operação foi treinado e envolvido?
As equipes de enfermagem e o corpo clínico dos turnos diurno e vespertino foram treinados no novo fluxo e no checklist, com lista de presença registrada, e a sinalização dos pacientes em fluxo rápido foi comunicada à recepção. A gestão visual entrou com o piloto: o andamento do fluxo e as esperas por turno passaram a ficar visíveis para a equipe, preparando o painel definitivo por turno.
D4 Houve desvios em relação ao plano? Quais evidências registram a execução?
Dois desvios registrados: na primeira semana, o checklist de reavaliação foi revisado com as sugestões dos médicos do plantão, que pediram critérios de alta mais objetivos, e a etiqueta de prioridade começou de forma manual até o sistema do hospital receber o campo específico. As evidências estão nos horários do sistema, na folha de verificação preenchida turno a turno, nos checklists assinados pelos médicos e nas fotos do quadro de gestão à vista antes e depois, tudo conferido semanalmente por mim.
Checar
O lead time porta-alta caiu de 4,9 para 2,7 horas e a evasão de 6,2% para 3,1%, sem perda de segurança.
A verificação usou o mesmo indicador e a mesma fonte do estado atual: os registros de horário do sistema do hospital. No piloto de 2 semanas, o lead time porta-alta caiu de 4,9 para 2,7 horas (−45%) e a evasão recuou de 6,2% para 3,1%, sem perda de segurança assistencial. A queda veio exatamente das duas esperas atacadas, laboratório e reavaliação, que concentravam 68,5% do problema: o fluxo rápido tirou o paciente simples da fila dos graves e o prazo de 45 minutos esvaziou a espera pelo resultado. A meta de 2,5 horas ainda não foi totalmente atingida porque o piloto não cobriu o turno noturno, onde estão 57% dos casos. O ganho projetado é de R$ 486 mil/ano, com payback de cerca de 3 meses, e o rollout para os três turnos ficou para a próxima onda, com conclusão até 11/12/2026.
C1 Os indicadores foram re-medidos do mesmo jeito da situação inicial? Compare o antes × depois.
Sim. Re-medimos da mesma forma e pela mesma fonte do estado atual, os registros de horário do sistema do hospital: no piloto de 2 semanas, o lead time porta-alta caiu de 4,9 para 2,7 horas, e a evasão recuou de 6,2% para 3,1% no mesmo período.
C2 A meta foi atingida — ou quanto dela?
A meta de 2,5 horas ainda não foi totalmente atingida: o piloto entregou 2,7 horas, uma redução de 45% que cobre a maior parte do caminho. Na evasão, a queda foi de 3,1 pontos percentuais (6,2% → 3,1%), rumo à meta de 2,5%. O que falta depende do rollout ao turno noturno, onde estão 57% dos casos.
C3 Qual foi o ganho do projeto em R$?
O ganho financeiro projetado é de R$ 486 mil/ano, entre receita recuperada com a queda da evasão e redução de horas extras, com payback de cerca de 3 meses sobre os ~R$ 16 mil investidos. A validação final fica com o Financeiro após a consolidação nos três turnos.
C4 Houve efeito colateral? O ganho é mesmo do projeto — ou de fator externo?
Nenhum efeito colateral: a segurança assistencial foi preservada e os protocolos clínicos mantidos integralmente. O ganho é do projeto: a queda veio exatamente das duas esperas atacadas pelo desenho do estado futuro, laboratório e reavaliação, e não houve mudança de demanda ou de perfil de pacientes no período do piloto.
Agir
Trabalho padronizado publicado, painel por turno com dono definido e yokoten previsto para outras unidades.
Para o ganho não evaporar, o fluxo novo virou padrão: checklist de reavaliação publicado no sistema do hospital como trabalho padronizado, protocolo de fluxo rápido com enfermeiro navegador e prazo de 45 minutos formalizado com o laboratório. A gestão visual sustenta a rotina: um painel por turno mostra os seis itens de controle, do porta-alta (até 2,5 h) à evasão (até 2,5%), cada um com responsável, e a Gerência do PA assume como dona do indicador em 11/12/2026. Se a média do turno passar de 3,0 horas ou o prazo do laboratório estourar, um plano de reação de 7 passos cronometrados entra em ação, com escalonamento em caso de recorrência. A lição registrada: gargalo em área de apoio exige prazo formal pactuado, não boa vontade. O yokoten está desenhado: o modelo de fluxo rápido e prazo pactuado será replicado em outras unidades, e a próxima onda leva o fluxo ao turno noturno.
A1 O novo jeito de trabalhar virou trabalho padronizado? (POP / instrução de trabalho)
Sim. O checklist de reavaliação com critérios objetivos de alta foi publicado no sistema do hospital como trabalho padronizado, o fluxo rápido verde/azul virou protocolo com enfermeiro navegador e o prazo de 45 minutos com o laboratório foi formalizado junto com a etiqueta de prioridade. As equipes foram treinadas no padrão novo, com registro.
A2 Qual é a rotina de auditoria e gestão visual que vai sustentar o ganho — e quem é o dono do indicador?
O painel automático do sistema mostra, por turno, seis itens: porta-alta (até 2,5 h), prazo do laboratório (até 45 min), pacientes verde/azul no fluxo rápido (mínimo de 80%), uso do checklist (100% dos casos), evasão (até 2,5%) e permanência acima de 6 h (até 10%), cada um com responsável definido. A dona do indicador é a Gerência do Pronto Atendimento, que recebe a entrega formal em 11/12/2026.
A3 Qual é o plano de reação se o indicador voltar a piorar?
Se a média do turno passar de 3,0 horas ou o prazo do laboratório estourar, dispara um plano de reação com 7 passos cronometrados: confirmação do alerta e identificação do gargalo em até 15 minutos, correção imediata e, em caso de recorrência (2 horas ou 3 turnos seguidos), escalonamento à gerência e à patrocinadora do projeto.
A4 Onde a solução pode ser replicada (yokoten), o que já foi replicado — e quais lições ficaram?
O yokoten está planejado: o modelo de fluxo rápido por família de valor e prazo pactuado com área de apoio será replicado em outras unidades da rede. A lição central: gargalo em área de apoio, como o laboratório, se resolve com prazo formal pactuado, não com boa vontade operacional. Os próximos giros incluem o rollout no turno noturno, a validação dos ganhos com o Financeiro e a avaliação do ponto de coleta dedicado no PA numa fase 2.
Mapeando o fluxo do paciente verde/azul da porta à alta, a equipe do próprio Pronto Atendimento descobriu que quase todo o lead time de 4,9 h era espera, não cuidado. Com fluxo rápido por família de valor, prazo pactuado de 45 minutos com o laboratório e checklist padronizado de alta, o piloto de 2 semanas derrubou o porta-alta para 2,7 h (−45%) e a evasão de 6,2% para 3,1%, sem perda de segurança assistencial. O ganho projetado é de R$ 486 mil/ano, com payback de cerca de 3 meses e trajetória compatível com a meta de 2,5 h.
Pronto pra transformar o seu fluxo?
Use este case como referência de profundidade — meça a linha de referência, enxergue os desperdícios, implante o estado futuro, comprove o ganho na mesma régua e padronize.
